           PAULO FREIRE:
    aprendendo com a prpria histria
                                                                                Paulo Rosas
                                        Presidente do Centro Paulo Freire  Estudos e Pesquisas




      PAULO Reglus Neves FREIRE nasceu no Recife, na Estrada do Encanamento,
em 19 de setembro de 1921. Faleceu em So Paulo, no dia 2 de maio de 1997.

       Sua histria de vida  marcada por trs perodos, caracterizados por desiguais
referncias de espao e tempo.

                                                                          Tempo do Recife

        O primeiro e mais longo deles teve o Recife e Jaboato como cenrios: 1921 a
1964. Anos de infncia e adolescncia, de formao escolar e consolidao das razes
afetivas e intelectuais de seu pensamento. Por tais motivos, o Tempo do Recife ocupar
espao maior neste artigo.

Recife... Jaboato...

       Paulo era filho de Joaquim Temstocles Freire, capito da Polcia Militar de
Pernambuco e de Edeltrudes Neves Freire: Dona Tudinha. Ela "era essa coisa eufmica
que se chama prendas domsticas (...). Era uma bordadeira excelente!" (Freire. P. e
Guimares, S., 1982, p. 17). Conforme depoimento de Maria Adozinda Monteiro Costa,
educadora e prima de Paulo Freire, que conviveu com a famlia por vrios anos, Dona
Tudinha era uma pessoa bonssima, cuja conduta era pautada pela mansido. J no
Recife e Paulo casado, Dona Tudinha o visitava quase diariamente.

          Paulo teve uma irm, Stela, e dois irmos, Armando e Temstocles. Stela foi
professora primria do Estado. Armando, funcionrio da Prefeitura da Cidade do Recife,
abandonou os estudos aos 18 anos, no chegou a concluir o curso ginasial. Temstocles
entrou para o Exrcito. Aos dois, Paulo agradece emocionado, em uma de suas
entrevistas a Edson Passetti (Passetti, E. 1998, p. 35), pois comearam a trabalhar muito
jovens, para ajudar na manuteno da casa e possibilitar que Paulo continuasse
estudando.

        Guardou da infncia lembranas fortes que o acompanharam por toda a vida e
que relata em vrias de suas obras. "Minha alfabetizao", declarou  Revista Nova
Escola, em dezembro de 1994, "no me foi nada enfadonha, porque partiu de palavras e
frases ligadas  minha experincia, escritas com gravetos no cho de terra do quintal".
De modo ainda mais incisivo, escreveu em A importncia do ato de ler (Freire, P. 1982
p.16): "Fui alfabetizado no cho do quintal de minha casa,  sombra das mangueiras,
com palavras do meu mundo, no do mundo maior dos meus pais. O cho foi o meu
quadro-negro; gravetos, o meu giz." E em Sobre Educao, V. 1 (Freire, P. e Guimares,
S. 1982 p.14-15): "Voc veja como isso me marcou, anos depois. J homem, eu proponho
isso! Ao nvel da alfabetizao de adultos, por exemplo."

         Na mesma entrevista  Nova Escola (parcialmente transcrita em Paulo Freire,
uma biobibliografia. p.30), Paulo fala com ternura de Eunice Vasconcelos, sua primeira
professora: "jovenzinha de seus 16, 17 anos (...) ela me fez o primeiro chamamento com
relao a uma indiscutvel amorosidade que eu tenho hoje, e desde h muito tempo, pelos
problemas da linguagem e os da linguagem brasileira, a chamada lngua portuguesa do
Brasil."

       Difcil para toda a famlia foi deixar a casa da Estrada do Encanamento, em abril
de 1932. Em vrios depoimentos e entrevistas, Paulo recorda com amorosidade da casa,
do quintal, das duas mangueiras, prximas o bastante para que seu pai armasse uma
rede a sua sombra. Lembra que at os sete anos, aproximadamente, o bairro onde havia
nascido "era iluminado por lampies (...) Eu costumava acompanhar, do porto de minha
casa, de longe, a figura magra do acendedor de lampies de minha rua." (Freire, P. 1982,
p.15) Esclarece a Passetti (1992, p. 32): a casa da Estrada do Encanamento, 724,
pertencia ao "tio Rodovalho", comerciante no Rio de Janeiro, que a deixara com a me
dele, av de Paulo: "vivamos todos na casa de minha av." "A crise de 1929 afetou o
comrcio" e o Rodovalho, at ento bem sucedido, no encontrou outro caminho seno a
concordata, seguindo-se hipoteca e perda da casa. Sem recursos para alugar outra casa
no Recife, a famlia foi morar em Jaboato.

        Permaneceria em Jaboato durante 9 anos, de abril de 1932 a maio de 1941
(Freire, P. 1994, p. 103). Recorda Paulo (idem, p. 40-41), que do Recife conservaram,
como smbolos de um status provisoriamente perdido, o piano alemo em que sua tia
Lourdes tocava Chopin, Beethoven, Mozart... e a gravata de seu pai. De Jaboato ficaram
as lembranas das travessuras com seu irmo Temstocles e com os novos
companheiros ali descobertos, "de outra classe", como indicava o piano: Dourado,
Reginaldo, Baixa, Toinho Morango, Gerson Macaco... De Jaboato mais fortes foram as
lembranas da morte do seu pai, em 1934, e das privaes antes desconhecidas: "minha
compreenso da fome no  dicionria", escreveria em  sombra desta mangueira
(Freire, P. 1995, p. 31).

        Em Jaboato concluiu o curso primrio. Mas, na poca, no havia como
prosseguir sua formao escolar, salvo no Recife. Iniciou o curso ginasial no Colgio 14
de Julho, no bairro de So Jos. Sem recursos para continuar os estudos em uma escola
paga, interrompeu o curso no final da primeira srie. Insistentes pedidos seus reforaram
a luta de Dona Edeltrudes, que fez vrias tentativas para conseguir uma escola onde
Paulo pudesse estudar gratuitamente. Aps diversas viagens frustradas ao Recife, afinal
Dona Edeltrudes encontrou no Professor Aluzio Pessoa de Arajo, do Colgio Oswaldo
Cruz, a compreenso que possibilitou a Paulo Freire dar continuidade a sua formao
escolar. Ali concluiu o curso secundrio, iniciado no Colgio 14 de Julho, e realizou o pr-
jurdico, conforme o modelo ento vigente (Freire, A. M. A., 1996, p. 30).

        No Colgio Oswaldo Cruz, aps algum tempo como censor, Paulo iniciou a
carreira de magistrio, como professor de portugus. Substitua Moacir Albuquerque,
considerado, ento, um dos melhores professores de portugus do Recife. De 1941 a
1944, recorda (Freire, P. 1994, p. 103-4): "...vivi um tempo intensamente dedicado a
leituras to crticas quanto me era possvel fazer, de gramticos brasileiros e
portugueses." Prossegue: "Parte da parte que me cabia do que eu ganhava dedicava 


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compra de livros e de velhas revistas especializadas. (...) Raramente, naquele perodo de
alumbramento em que me achava, apaixonado, enfeitiado mesmo, pela docncia no
Colgio Oswaldo Cruz, apliquei um dinheiro maior na compra de uma roupa. (...) No
andava sujo,  verdade, mas andava feiamente vestido".

        Em 1943 ingressou na Faculdade de Direito do Recife. No ano seguinte, casou-se
com Elza Maria Costa de Oliveira, professora primria, que exerceria um papel
fundamental na vida e na construo das idias e das prticas de Paulo Freire. Sobre
Elza, diria Paulo (Freire, P. e Macedo, D. 1990, p. 109): "Ela influenciou-me
enormemente. Assim, meus estudos lingsticos e meu encontro com Elza conduziram-
me  pedagogia." Com Elza, Paulo teve cinco filhos: suas trs Marias, como gostava de
dizer (Maria Madalena, Maria Cristina e Maria de Ftima), Joaquim e Lutgardes.

       Pessoalmente, lembro de Elza como uma pessoa cativante, por quem alimentei,
juntamente com minha esposa, Argentina Rosas, profunda amizade e respeito por sua
conduta tica e competncia. Sem dvida, no fomos ns os nicos a ver em Elza, mais
do que a companheira amorosa de Paulo Freire, uma profissional competente. Arturo
Ornelas (Gadotti, Org., 1996, box 34, p.150-51) declara que quando viu Elza pela
primeira vez experimentou uma impresso da qual jamais esqueceu. E acrescenta:
"Trabalhamos juntos na frica, em So Tom e Prncipe. A conheci a professora Elza,
aquela que ensinava aos africanos de So Tom, o caminho para descobrirem as
palavras geradoras, os temas geradores a partir do universo vocabular; enquanto ela os
ensinava eu tambm aprendia. Com ela, tambm, discutamos e analisvamos a poltica
nacional, a economia do pas, a beleza e a dor da frica."

      Quase Bacharel em Direito, aluno do ltimo ano, no precisou de longo "estgio",
mas de uma decisiva e inconclusa experincia  a cobrana de um dbito  para
compreender com clareza que a prtica jurdica no poderia ser seu cotidiano profissional.

        No mesmo ano, 1947, ainda como professor de portugus no Colgio Oswaldo
Cruz, tomou conhecimento, atravs de Paulo Rangel Moreira, da instituio do SESI pela
Confederao Nacional das Indstrias. Recorda (Freire, P. 1992, p.15-18) que, "numa
tarde clara do Recife", Paulo Rangel, em visita a sua casa, na Rua Rita de Souza, falou,
em presena de Elza, da criao do SESI, e "do que trabalhar nele" poderia significar para
os dois: ele prprio j aceitara o convite de seu presidente, o engenheiro Cid Sampaio,
para fazer parte de "um setor de projetos no campo da assistncia social", enquanto
aguardava a implantao de um setor jurdico, mais adequado, por sua formao. Quanto
a Paulo Freire, trazia o convite para ocupar a direo de uma Diviso de Educao e
Cultura. Para Paulo Freire o SESI representaria muito mais do que um emprego. Junto ao
desafio e  aprendizagem, foi a oportunidade decisiva para a definio de sua histria
profissional, como educador e filsofo da educao. Em 1992, Paulo Freire afirmaria na
Pedagogia da Esperana (Freire, P. 1992, p. 18): "A Pedagogia do oprimido no poderia
ter sido gestada em mim s por causa de minha passagem pelo SESI, mas minha
passagem pelo SESI foi fundamental."

       Nos anos 50, o fazer administrativo e a ao pedaggica (cuja clientela era
formada preponderantemente por trabalhadores na indstria), inerentes a seu cotidiano
no SESI, o magistrio na Escola de Servio Social de Pernambuco e na Escola de Belas
Artes, da Universidade do Recife, onde lecionava Histria e Filosofia da Educao, foram
as referncias regulares de trabalho que provocaram sua criatividade e alimentaram a
construo de seu pensamento. Alm disso, nos anos 50/60, respirava-se no Recife um


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clima de renovao e de esperana que encontrava no pensamento de Paulo Freire
fundamentao e, ao mesmo tempo, o fortalecia (Rosas, P. In Freire, P. 2001, p. XLIX-
LXXV).

        Os anos 50 foram particularmente importantes para a solidificao do pensamento
de Paulo Freire, no tangente a leituras e reflexes. Leituras e reflexes muitas delas
comuns ao que chamo (Rosas, P. 1986, p. 2      3-4) de "uma certa fora de trabalho em
disponibilidade", que ento havia no Recife, formada por professores, artistas,
intelectuais, estudantes insatisfeitos com o statu quo, entre os quais me incluo. A
bibliografia citada por Paulo Freire em Educao e atualidade brasileira (1959) salienta
autores integrantes do ISEB (Roland Corbisier, Hlio Jaguaribe, Djacir Menezes,
Guerreiro Ramos, lvaro Vieira Pinto) e "clssicos",  maneira de Rugendas e Saint-
Hilaire, alm de Fernando Azevedo, Ansio Teixeira, Gilberto Freyre, Karl Mannheim,
Gabriel Marcel, Jacques Maritain, Caio Prado Junior. Estas ou a maioria destas eram
tambm nossas leituras ou as leituras de muitos de ns. Alm de achados mais pessoais
                                                             l
de Paulo Freire, como Zevedei Barbu. Eram, igualmente, eituras nossas Emmanuel
Mounier, Georges Gurvitch, Lebret. Paulo procurava as idias, mas sempre foi sensvel 
forma, ao escrever bem. Ainda quando do seu retorno ao Brasil, indicava aos jovens ler
Gilberto Freyre, destacava Nordeste, ainda que muitas idias divergissem das suas, para
ver o que era escrever bem.

       Nas palavras de Ana Maria Arajo Freire (1996, p.35), foi como autor do Relatrio
da Comisso Regional de Pernambuco, intitulado "A educao de adultos e as
populaes marginais  o problema dos mocambos", apresentado no II Congresso
Nacional de Educao, realizado no Rio de Janeiro em julho de 1958, "que Paulo Freire
firmou-se como educador progressista."

        No que se aprofundava na anlise poltica e filosfica da educao, Paulo Freire
definia sonhos e utopias possveis, seu pensamento fazia-se mais consistente, seu fazer,
mais criativo, sem perder a coerncia entre o pensar e o fazer. Esta busca de coerncia 
reconhecida por muitos autores. De outra parte, provocou perplexidades e crticas, nem
sempre formalmente expressas. Defender a rigorosidade tica e combater o rigorismo,
tudo bem. Entretanto, agir de acordo com a rigorosidade tica, mas sem rigorismo,
suscitou, muitas vezes, incompreenses. Como suscitou incompreenses dizer,
publicamente, considerar justo receber certas homenagens, quando o comportamento
esperado era o de agir de acordo com a praxe, dizendo-se no merecedor do que lhe era
conferido, mesmo sendo insincero. A recusa da conduta insincera ficou explicitada, por
exemplo, ao receber homenagem da Fundao Joaquim Nabuco, medalha de
"pesquisador emrito", em novembro de 1996.

         A substituio do formato convencional das salas de aula pela distribuio dos
atores em crculos e o emprego de tcnicas de grupo (a conversa, o grupo de estudo, o
grupo de ao, o frum, o grupo de debate e a carta temrio), como alternativas 
conferncia e  exposio didtica, preparavam o clima para o dilogo e a descoberta,
pelos atores, de saberes j existentes entre eles, mas no percebidos como saberes. O
"movimento" da conscincia intransitiva para a transitivo-ingnua e, desta, para a
conscincia "fanatizada" (massificao) ou a conscincia crtica foi, de certo, o ponto de
partida para as construes futuras da pedagogia freireana. Inclusive dos princpios do
"mtodo Paulo Freire de alfabetizao". A utilizao de tcnicas audiovisuais (projetores)
facilitaria a prtica do "mtodo", tanto quanto poderia facilitar, entre os alfabetizandos e os



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alfabetizados, sobretudo a partir da problematizao e da pergunta/dilogo, a leitura ou
releitura crtica do mundo.

        No processo de criao do "mtodo", Paulo Freire, do mesmo modo como ocorrera
com sua prpria alfabetizao, salienta o universo vocabular do alfabetizando como ponto
de partida. Descreve a Nilca Lemos Pelandr (Pelandr, 2002, p. 59): "... era preciso que
eu fosse ao contexto de quem ia aprender a ler, para pesquisar o discurso da
cotidianidade e de l retirar o vocabulrio a ser utilizado no processo." Na simplicidade
deste ato se encontra a origem do envolvimento dos alfabetizandos, no apenas quanto
ao interesse por aprender a ler a palavra escrita, mas se dispor a participar da
problematizao de situaes e a dialogar quanto  busca de explicaes lgicas para as
situaes/problemas.

        O advento dos anos 60 encontrou Paulo Freire com todo o delineamento de um
pensamento poltico-pedaggico dialgico e libertador, conducente a atitudes indicativas
da autonomia e do intercmbio dos saberes entre o aprendiz e o educador. O Movimento
de Cultura Popular (MCP), o Servio de Extenso Cultural (SEC), da Universidade do
Recife, a experincia de Angicos e o Programa Nacional de Alfabetizao, do MEC,
foram, ento, os campos de exerccio da criatividade e das prticas pedaggicas de Paulo
Freire, sempre objetos de novas reflexes.

        Apesar de Paulo Freire se sentir cada vez mais interessado em aprofundar a
discusso dos fundamentos filosficos de suas propostas pedaggicas, o sucesso
alcanado pelas primeiras experincias com o mtodo atropelava o desejo de seu
idealizador. "No princpio era o mtodo"  escreve Gerhardt (Gerhardt, 1996, p.156). E,
no se pode negar, o mtodo era um dos primeiros sonhos possveis de Paulo Freire.

       No MCP, onde era Diretor da Diviso de Pesquisa e Coordenador do Projeto de
Educao de Adultos, promoveu sua primeira aplicao, a qual teve lugar no Centro de
Cultura Dona Olegarinha, no Poo da Panela, Recife (Freire, P. 1963). A turma era
formada por 5 adultos analfabetos. Dois desistiram. Testemunha Freire: os alfabetizandos
eram de origem rural, "revelando certo fatalismo e certa inrcia diante dos problemas.
Completamente analfabetos." J o primeiro teste, no vigsimo dia, alcanou resultados
animadores. No trigsimo dia, "liam e escreviam texto simples e at jornal."

        A prtica foi repetida com um grupo de 8 pessoas (3 desistiram). Os 5 restantes
obtiveram resultados semelhantes ao anterior. Um terceiro grupo, de 25 pessoas, foi
iniciado, mas por motivos que independeram da vontade de Paulo Freire, o trabalho
precisou ser interrompido na vigsima hora, "com a maioria j lendo e escrevendo
palavras e pequenos textos."

       Outras aplicaes do mtodo foram feitas em Joo Pessoa (CEPLAR) e na
Universidade do Recife (Servio de Extenso Cultural), com a colaborao de estudantes,
sempre com resultados que justificavam a continuidade. Grupo de jovens pesquisadores
atuando no SEC, entre os quais Jarbas Maciel, Jomard Muniz de Britto e Aurenice
Cardoso, desenvolviam estudos sobre a fundamentao terica do que j chamavam
"Sistema Paulo Freire".

       Seguiu-se a experincia de Angicos, no Rio Grande do Norte, desenvolvida entre
janeiro e maro de 1963, sem dvida o mais expressivo esforo de alfabetizao,
empregando-se o "mtodo Paulo Freire", ento concretizado no Brasil. Provocou uma


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certa polmica, inclusive entre companheiros de Paulo Freire, pois foi realizada com
recursos da USAID e intervenincia de Aluzio Alves, na poca Governador do Rio
Grande do Norte. Entretanto, deu mais visibilidade s possibilidades pedaggicas e
polticas do mtodo e acirrou os temores dos conservadores (Lyra, C. 1996).

       Finalmente, o Programa Nacional de Alfabetizao, do MEC, cuja coordenao
assumiu, a convite do ministro Paulo de Tarso Santos. O Programa deveria adotar o
"mtodo Paulo Freire" e alcanar amplitude verdadeiramente nacional. Projeto poltico,
"mas sem Partido e sem politiquices", declarou Paulo a Srgio Guimares (Freire, P. e
Guimares, S. 1987, p. 13). E acrescentou: "No quero dizer que na poca j
estivssemos com o esquema montado para o pas todo, mas quase: estvamos
cuidando da capacitao de quadros que, por sua vez, se multiplicavam, etc. Com esse
Plano, pretendamos alcanar o pas todo."

         A utilizao do "mtodo Paulo Freire" em Angicos e no Programa Nacional de
Alfabetizao, do MEC, contribuiu, sem dvida, para a priso de Paulo e seu posterior
exlio, quando foi deflagrado o golpe de Estado de1964.

        Apesar da significativa influncia exercida sobre os movimentos de cultura e
educao popular dos anos 60 (Movimento de Cultura Popular, Recife, do qual foi um dos
fundadores e dirigente; Campanha De P no Cho tambm se Aprende a Ler, Natal;
Movimento de Educao de Base, de mbito nacional; Campanha de Educao Popular,
Joo Pessoa), das experincias de Angicos, do Programa Nacional de Alfabetizao e
do Servio de Extenso Cultural, nesse primeiro perodo escreveu apenas um livro:
Educao e Atualidade Brasileira. Ainda assim, utilizado como tese para concurso, teve
uma edio particular, do Autor: Recife, 1959. Somente em 2001 Educao e Atualidade
Brasileira teria uma edio comercial, So Paulo: Cortez Editora. Em 1961, a Imprensa
Universitria, da ento Universidade do Recife, publicou um opsculo, tambm ele fora do
comrcio, A propsito de uma administrao, onde Paulo Freire exps sobre as atividades
realizadas pelo Professor Joo Alfredo Gonalves da Costa Lima, na Reitoria da
Universidade. Fora do comrcio foram tambm os Livros de exerccio e o do monitor,
destinados  orientao dos alfabetizadores. O nico livro de Paulo Freire publicado antes
do exlio data de 1963: Alfabetizao e conscientizao. Porto Alegre, Editora Emma.

        Com o golpe de Estado de 1964, Paulo Freire foi preso no dia 16 de junho,
acusado de atividades subversivas. Permaneceu 70 dias detido, parte em Olinda, parte no
Recife, mas em diversas celas. Ou, como declarou a Srgio Guimares (1987, 66): "fui
inquilino de duas casas, mas morei em vrios apartamentos"...

       Consciente da realidade que vivia o pas e que vivia ele prprio, retirou da situao
a oportunidade imprevista de uma nova aprendizagem. Consciente de ser preciso
aprender a viver na cela, aprendeu com Clodomir Moraes palavras e expresses que
"preso no usa em depoimento": alis, por sinal, a propsito... ", "at que voc pare, vai
ter que meter um terceiro no fogo"... Aprendeu novas formas de solidariedade. De
respeito (e testemunhou desrespeito)  pessoa. A participar de jogos e passatempos: em
um dos jogos, inveno de um jovem vizinho de cela (no se viam, mas se ouviam),
Ariano Suassuna e o autor deste artigo, entre outros no citados, foram "personagens"...
Questionado, Paulo Freire revelou a Guimares: "Saudade, sim. Desespero, no."




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                                                                          Tempo de exlio

        O fato de ser posto em liberdade no lhe oferecia o mnimo de segurana de poder
retomar seu trabalho de educador e filsofo da educao, sem a constante ameaa de
voltar a ser preso. O Programa Nacional de Alfabetizao fora extinto j no dia 14 de abril.
Por duas vezes (Freire, A. M. A., 1996, p. 42) tinha sido forado a viajar do Recife ao Rio
de Janeiro, para responder a inqurito policial-militar.

        Entretanto, resistia a sair do Brasil. Ns prprios  eu e Argentina Rosas 
participamos de um esforo no sentido de lhe mostrar os riscos a que estaria sujeito se
insistisse em permanecer no pas: Paulo e Elza se encontravam, ento, em um local
reservado, em Casa Caiada, Olinda. Lembro que, diante da deciso, aparentemente
inabalvel, Elza me chamou  parte e disse: vocs ficam aqui at de manh, mas que ele
sai, sai. Ficamos menos intranqilos.

         Convencido, afinal, j agora sem nossa interferncia, de no haver outra
alternativa, partiu para seu tempo de exlio: setembro de 1964 a junho de 1980. Uma
rpida passagem pela Bolvia. Difcil, a negociao: o Embaixador se recusava a receber
mais um asilado poltico. Vencida a barreira, durante sua permanncia na Embaixada, no
Rio de Janeiro, foi procurado pelo Diretor de um Departamento do Ministrio da Educao
da Bolvia, que o contratou para prestar assessoria no campo da educao, em particular
da educao primria e de adultos. Saa do Brasil empregado. Entretanto, no suportou a
altitude de La Paz.

        Foroso ir adiante. A descoberta de Santiago do Chile: novembro de 1964 a abril
de 1969. Escreveria em 1992, na Pedagogia da esperana (p. 35): "Cheguei ao Chile de
corpo inteiro. Paixo, saudade, tristeza, esperana, desejo, sonhos rasgados, mas no
desfeitos, ofensas, saberes acumulados, nas tramas inmeras vividas, disponibilidade 
vida, temores, receios, dvidas, vontade de viver e de amar. Esperana, sobretudo."

        Em Santiago, o reencontro com a famlia  Elza e os filhos, chegados em meados
de janeiro de 1965  possibilitou viver uma nova experincia, novas aprendizagens
resultariam e, ao mesmo tempo, seriam o incio de uma das linhas de fora que
marcariam sua histria de vida. No Chile, respirou um certo clima de Brasil, o encontro e
a aproximao com intelectuais brasileiros igualmente exilados: Plnio Arruda Sampaio,
Ernani Maria Fiori, lvaro Vieira Pinto, Francisco Weffort, Fernando Henrique e Ruth
Cardoso, Thiago de Mello, entre outros. Certamente, no havia entre eles unidade de
pensamento, nem ali estavam levados por motivos idnticos.

         Uma produtiva permanncia de quase cinco anos. Em Santiago retomou o fio de
sua prtica pedaggica, de incio, como assessor de Jacques Chonchol, Presidente do
Institututo de Desarrollo Agropecuario (INDAP). Posteriormente, na condio de consultor
da UNESCO, atuando no Instituto de Capacitacin y Investigacin de la Reforma Agrria
(ICIRA). Naqueles anos, sobretudo, escreveu. Revelou a Srgio Guimares (Freire, P. e
Guimares, S. 1987, p. 94): "Cheguei at a contar, escrevi 1.600 pginas em um ano e
meio, manuscritas."

        No Chile escreveu seu primeiro livro publicado comercialmente: Educao como
prtica da liberdade, "uma reviso ampliada" de Educao e atualidade brasileira, a tese
com que concorreu  ctedra de Histria e Filosofia da Educao, na Escola de Belas
Artes da Universidade do Recife. Os originais em portugus da Pedagogia do oprimido


                                             7
foram igualmente escritos no Chile, entre 1967 e 1968 e seriam publicados pela primeira
vez em 1970: em ingls, nos Estados Unidos da Amrica (Pedagogy of the oppresed),
Nova York, Herder and Herder, e em portugus, com importante prefcio de Ernani Maria
Fiori, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra (Cf. Gadotti, M., Organizador, 1996, p.262).

        Em Pedagogia da Libertao em Paulo Freire, obra organizada por Ana Maria
Arajo Freire (1999), escrevi (p. 175-178) algumas reflexes sobre a construo da
Pedagogia do oprimido. Disse ento: "A Pedagogia do oprimido no  o resultado de um
insight, o lampejo brilhante e fortuito de uma inspirao ou descoberta.  uma construo
desenvolvida ao longo de duas dcadas, um momento marcante em um processo de
elaborao intelectual, e que, como tal, no representaria o trmino do processo."

       Por sinal, Paulo Freire (1992, p. 54), ele prprio, confessa haver levado um ano ou
mais falando, em conferncias, debates e conversas com amigos, sobre o livro que
estava sendo "partejado": "tempo de oralidade" da Pedagogia do oprimido. No vivera,
igualmente, entre os anos 50 e 64, no Recife, o partejamento e o tempo de oralidade das
referncias primeiras, das categorias que fundamentariam e, ao mesmo tempo, seriam o
legado maior do seu pensamento? No estava ele, a todo instante, em aulas,
conferncias, debates, conversas com os amigos, a falar de conscientizao e mudana,
conscincia ingnua, fanatizada ou massificada, e conscincia crtica, educao e
domesticao? Quantas, dessas e de outras palavras e expresses, no estavam,
devagarinho, mas com firmeza, integrando nosso vocabulrio cotidiano?

        Por conseguinte, no Chile foram ainda partejados alguns dos livros de Paulo Freire
que davam forma a seu discurso no Recife, inclusive ao discurso-base do "mtodo Paulo
Freire" e anunciavam sua obra prima: a Pedagogia do oprimido. Livros, cujo "tempo de
oralidade" havia tido incio no Recife, tais como: Educao e conscientizao:
extensionsimo rural (em colaborao com Ernani Maria Fiori, Jos Luiz Fiori e Raul
Veloso Farias), CIDOC, Cuernavaca, Mxico, 1968; Contribucin al proceso de
conscientizacin del hombre en Amrica Latina, Montevidu, 1968; Accin cultural para la
libertad, ICIRA, Santiago, 1968; Extensin o comunicacin? La conscientizacin en el
medio rural, ICIRA, Santiago, 1969 (Cf. Gadotti, M., Organizador, 1996, p.260-62).

       Do Chile saiu pela primeira vez em 1966, para realizar conferncias e participar
de seminrios no Mxico, C   uernavaca, onde reencontrou Ivan Ilich, que conhecera no
Recife, no incio dos anos 60, e estabeleceu um bom relacionamento com Erich Fromm.
Em 1967 fez sua primeira visita aos Estados Unidos da Amrica, a convite de seis
Universidades norte-americanas. E uma segunda vez, no ano seguinte, 1968,
"rapidamente". Voltaria aos Estados Unidos, ainda em seu tempo de exlio, para uma
permanncia mais longa: abril de 1969 a fevereiro de 1970, em Harvard e, no
simultaneamente, em um Centro de Pesquisa, orientado "no sentido de uma
compreenso crtica do desenvolvimento" (Freire, P. e Guimares, S. 2000, p. 76-78).

       Sair do Chile, "no abandonar o Chile, do ponto de vista do meu querer bem", j
havia sido discutido com Elza. A sada para os Estados Unidos foi uma d     eciso que
envolveu toda a famlia. Em 1969 Madalena j havia casado e estava morando no Brasil.
Em 1970 tinha vrios convites: continuar nos Estados Unidos por mais trs anos
(possibilidade que agradava a Elza), Canad, Genebra (Conselho Mundial das Igrejas).

        Amava e era grato ao Chile. De outra parte, algumas dificuldades comearam a
surgir no Chile: boatos, que considera "de um ridculo enorme", de que "teria escrito um


                                            8
livro violentssimo contra a democracia crist como um todo, mas sobretudo contra a
pessoa do Presidente Frei, que era um homem de bem". Acrescenta em depoimento a
Srgio Guimares (Freire, P. e Guimares, S. 1987, p.107): "No quis ser sado de novo".

        Alm disso, de acordo com informao de Almeri Bezerra de Melo (2001, p. 28),
Paulo Freire, que no se adaptara  altitude na Bolvia, agora enfrentava um maior
obstculo no Chile: os terremotos. Escreveu a Almeri, que se encontrava em Roma: "Meu
amigo, acho que tudo pode me faltar na vida; daria um jeito. Mas, o cho, isso no! Quero
sair dessa terra." Diante disso, declara Almeri Bezerra ter ido a Genebra, acompanhado
do presidente e do secretrio executivo do Centro de Documentao da Igreja Ps-
conciliar. Propuseram e foram acatados pelo Conselho Mundial das Igrejas, que enviou a
Paulo uma carta convite para prestar algo como uma consultoria especial ao
Departamento de Educao do Conselho. Diz Almeri, no mesmo local: "ele viria para as
margens do Lago Leman, onde no h terremotos; teria uma sala com secretria, a
biblioteca da instituio, uma digna ajuda de custos e tempo para estudar e aprofundar
suas idias...".

        Durante 10 anos, de fevereiro de 1970 a junho de 1980, Freire encontrou em
Genebra, no Conselho Mundial das Igrejas, endereo estvel. Professor na Universidade
de Genebra, com liberdade para desenvolver experincias fora da Sua, Paulo Freire
partiu para o mundo (sempre retornando a Genebra): fez-se presente com sua palavra e
ao na sia, Oceania, Amrica e, sobretudo, na frica de lngua portuguesa (Cabo
Verde, Angola, So Tom e Prncipe, Guin-Bissau). A partir de Genebra, Paulo Freire
projetou-se na histria da educao no sculo XX como um cidado do mundo.
Amadureceu afetiva e intelectualmente, a partir dos desafios vivenciados em diferentes
culturas. No Conselho Mundial das Igrejas, confessa: "Eu nunca talvez tenha sido to
livre!" O mesmo diria, de modo mais incisivo, em uma entrevista a Tempo e presena
(1979, citada por Faundez, 1996, p. 190): "E se voc me pede para testemunhar,
enquanto cristo, catlico de formao, direi que jamais, em toda a minha vida, me senti
to livre, quanto no perodo que trabalhei no Conselho Mundial das Igrejas. E deve-se
convir que eu trabalhei em muitos outros lugares."

         A expanso de suas atividades fora de Genebra foi facilitada pela criao do
Instituto de Ao Participativa (IDAC), fundado em 1971, em Genebra, por Paulo Freire
juntamente com outros exilados brasileiros (Claudius Ceccon, Miguel e Rosiska Darcy de
Oliveira). O IDAC, observam Eunice Macedo e colaboradoras (2001, p. 39-40), "alcanou
um grande nvel de popularidade" e organizou seminrios e oficinas "por todo o mundo".
O IDAC levou Paulo Freire e o grupo que com ele atuava em Genebra a Cabo Verde,
Angola, Tom e Prncipe e Guin-Bissau. O projeto de assessoria  Guin-Bissau se
alongou por cinco anos (Ceccon, C. 1996, p. 214). Sem dvida, como observa Faundez
(1996, p. 190): "Todos os que conhecem o pensamento e a prtica educativa de Paulo
Freire sabem que os anos 70 foram o perodo mais profundo e mais rico de sua prxis
pedaggica, sempre em contnua e constante evoluo."

      Com a perspectiva do retorno de Paulo Freire ao Brasil, em decorrncia da anistia,
a sede do IDAC foi transferida para o Rio de Janeiro e passou a ser um Centro de
Estudos e Pesquisas Educacionais, cujo principal objetivo " a divulgao das obras e do
pensamento de Paulo Freire" (Gadotti, M., Org., 1996, p. 682).

      Paulo Freire tinha 43 anos de idade quando partiu para o exlio. Retornou quase
16 anos aps. Em junho de 1979 obtivera seu primeiro passaporte brasileiro. Passou o


                                            9
ms de agosto no Brasil. Mas, somente no ano seguinte voltaria para ficar. Chegava com
o desejo de "reaprender o Brasil", como em 1964 falara de "aprender o Chile".

       Apesar do muito que ensinou ao mundo, que aprendeu do mundo, jamais perdeu
os vnculos afetivos e culturais com o Brasil, o nordeste brasileiro, o Recife. "Antes de ser
cidado do mundo", repetiu vrias vezes, "sou um cidado do Brasil." Jamais perdeu sua
recifensidade.

        O perodo do exlio foi duramente vivido. Assim escreveu na Pedagogia da
esperana (Freire, P., 1992, p.35): " difcil viver o exlio. Esperar a carta que se
extraviou, e notcias do fato que no se deu. Esperar s vezes gente certa que chega, s
vezes ir ao aeroporto simplesmente esperar, como se o verbo fosse intransitivo." Mas, ao
mesmo tempo, lhe proporcionou a oportunidade de consolidar seu pensamento.

        No intervalo, escreveu e publicou algumas de suas obras mais importantes. A
servio do Conselho Mundial das Igrejas, lembra Ana Maria Arajo Freire (1996, p. 42),
"andarilhou", como ele gostava de dizer, pela frica, sia, Oceania e Amrica. Para sua
tristeza, sublinha Ana Maria Freire, "com exceo do Brasil". O Brasil manteve por quase
16 anos suas portas fechadas para Paulo Freire, at mesmo quando sua me agonizava.

        Voltou com um novo aspecto: a barba, que comeou a usar nos Estados Unidos,
para se defender do frio. Mas, era o mesmo Paulo Freire, profundamente telrico, antes
de tudo, um pensador, um filsofo da educao, um educador e, por ser educador, um
poltico.



                                                                      Tempo de So Paulo


       Voltou para o Brasil e para o Recife: "Recife, sempre" escrevera do Chile. Ento,
por que So Paulo? Por que no, Recife?

        So Paulo foi uma opo quase inevitvel. Ningum melhor do que Ana Maria
Freire, para testemunhar (Freire, A. M. A., 1996, p. 44-45): "Condies polticas ainda
difceis", decorrentes da Lei da Anistia, diz Ana Maria Freire, exigiam do antigo exilado,
que pretendesse retomar suas antigas funes, requerer ao governo o estudo do seu
caso. Requerimento pode ser deferido ou indeferido. Pode estabelecer restries. Ainda
que fosse deferido e sem restries, seria uma condio inaceitvel. "Por consider-la
ofensiva, recusou-se a aceitar tal exigncia, tanto no caso da docncia quanto no de
tcnico", referente a suas atividades no antigo SEC.

       De outra parte, dez anos de liberdade em Genebra no poderiam ser sucedidos
pelo garrote burocrtico das universidades federais, contra o qual as instncias
administrativas eram, ento, e, em grande parte, ainda so, impotentes. Paulo Freire
precisava do apoio institucional que lhe assegurasse uma base salarial justa, referncia
internacional e liberdade para atender aos inmeros convites que, bem sabia,
continuariam a vir dos Estados Unidos da Amrica e de outras partes do mundo, para
ministrar cursos e conferncias. Convites que, de fato, ocorreram, at o final de sua vida.
Convites e convocaes de Universidades e de outras entidades internacionais, que
representavam justas honrarias, por tudo o que construra e continuava construindo em


                                             10
prol da educao. No poderia ser interrompida a seqncia de sua caminhada pelo
mundo, como peregrino do indito-vivel, do sonho possvel, "do direito e do dever de
                    a
mudar o mundo", d esperana no papel da educao para ajudar a conscientizar e
transformar a sociedade.

      S a morte o impediu de repetir de viva voz: "Se, de um lado a educao no  a
alavanca das transformaes sociais, de outro, estas no se fazem sem ela."

       De "viva voz", no entanto, continuou insistindo na Pedagogia da Indignao, obra
pstuma organizada por Ana Maria Arajo Freire: denncia, anncio, profecia, utopia e
sonho (Freire, P., 2000, p.91).

        Em So Paulo, encontrou as condies de trabalho e a liberdade de ao que no
encontraria no Recife. "Devido a possibilidade aberta pela Lei da Anistia e pelo esprito
democrtico da Reitoria da PUC, pde ficar para trabalhar, amar e criar em seu prprio
pas" (Freire, A M. A ., 1996, p. 44).

        Alm disso, de setembro de 1980 ao final do ano letivo de 1990, foi professor da
UNICAMP. J na UNICAMP o processo no foi to pacfico: aconteceu, observa Ana
Maria Freire (ob. cit., p. 44-45), por "presses dos estudantes e de alguns professores".
Entretanto, somente em 1985, a UNICAMP conferiu a Paulo Freire a condio de
professor titular. Para tanto, o Reitor solicitou do Conselho Diretor um "parecer sobre
Paulo Freire": Rubem Alves foi o encarregado de faze-lo e elaborou um incisivo
documento, transcrito por Ana Maria Arajo Freire em "A voz da esposa  A trajetria de
Paulo Freire" (1996, p.44-45).

         No mesmo ano de seu retorno ao Brasil, 1980, Paulo Freire decidiu, pela primeira
vez, filiar-se a um Partido Poltico: o Partido dos Trabalhadores (PT), do qual foi um dos
fundadores. Nos anos 50, certa frustrao, diante das expectativas e do processo da
redemocratizao de 1945, no estimulara Paulo Freire a se envolver na poltica
partidria. Nem mesmo durante os primeiros anos dos 60. Testemunha, no entanto, que
por muitos anos sonhou com um Partido Poltico diferente. No "Manifesto  maneira de
quem, saindo, fica", Eplogo de Educao na Cidade (1991, p. 143), Paulo Freire
confessa: "Esperei por mais de 40 anos que o PT fosse criado." Ao tomar conhecimento
da proposta de criao de um Partido dos Trabalhadores, ainda na Europa, j expressou
sua adeso.

          Se durante os anos 70, no Conselho Mundial das Igrejas e do Conselho Mundial
das Igrejas para o mundo, Paulo Freire alcanou o perodo mais profundo e mais rico de
sua prxis educativa, nas palavras de Antonio Faundez, as dcadas seguintes, dos anos
80 e 90, no apenas o mantiveram andarilhando mundo afora mas, agora, tambm pelo
Brasil. Se Freire realizou sua reaprendizagem do Brasil, uma releitura do Brasil, o Brasil
fez uma redescoberta de Paulo Freire. De 1964 a 1980, nomes como os de Paulo Freire e
Dom Helder Cmara, experincias pedaggicas como a do Movimento da Cultura
Popular, a Campanha De P no Cho Tambm se Aprende a Ler, o Movimento de
Educao de Base eram "protegidos" pela cultura do silncio. As conseqncias so,
ainda hoje, conhecidas: no Brasil: quantos cursos de Pedagogia tm nos seus currculos o
estudo do pensamento de Paulo Freire?

       Em outubro de 1986, Paulo foi surpreendido pela morte de Elza.  verdade que o
estado de sade de Elza inspirava cuidados. Era cardaca. Usava um marcapasso.


                                           11
       A morte de Elza representou para Paulo uma perda muito difcil de absorver.
Entretanto, compreendeu que era preciso viver. Fez a opo pela vida e pelo amor. No
dia 27 de maro de 1988 casou com Ana Maria Arajo. Ana Maria era ento sua
orientanda no curso de mestrado da PUC. Paulo a conhecera no Recife, filha de Aluzio
Arajo, cujo papel havia sido to decisivo em sua histria, ao conceder-lhe, na condio
de Diretor do Colgio Oswaldo Cruz, a bolsa que possibilitou a continuidade dos seus
estudos.

        De um belo depoimento de Mere Abramowicz (1996, p.201-04), envolvendo dois
momentos da vida de Paulo, a perda de Elza (1986) e o encontro com Nita - Ana Maria
Arajo  (1988),. destaco:
       "1986   um processo lento e difcil. Eu s saio disso se eu sair. Eu no posso
ser sado, puxado por algum. Decidir que eu saio  romper. Decidir  ruptura. Ficar com
o morto  a tendncia. Ficar com o que est vivo, essa  a deciso! Em momentos como
eu experimento agora, morre-se um pouco. Muito de mim ficou vivo. Tenho uma lealdade
para com a minha sobrevivncia."

       Ao receber o ttulo de Doutor honoris causa na PUC de So Paulo:
       "1988  Amei durante 42 anos intensamente! Elza morreu e eu no matei Elza em
mim. Mas optei pela vida!  a nica forma de viver e ser leal a Elza. Tive a coragem de
casar, de amar outra vez! Vivi momentos de culpa ao olhar uma rosa bonita! Amando
essa outra mulher encontrei o mundo! Quem no  capaz de amar tem que se rever.
       Dedico esse ttulo  memria de uma e  vida da outra!"

         De 01 de janeiro de 1989 a 27 de maio de 1991, Paulo Freire ocupou o cargo de
Secretrio da Educao da Cidade de So Paulo. No era a primeira vez que ele exercia
a administrao de um organismo de natureza educacional. Na verdade, assim comeara,
no SESI, em Pernambuco. Em 1960, Germano Coelho (2002, p. 49), na condio de
Diretor Executivo do Departamento de Documentao e Cultura (DDC), da Prefeitura do
Recife, nomeou Paulo Freire para a Diretoria de Cultura da entidade. No Movimento de
Cultura Popular, era ele o Diretor da Diviso de Pesquisa e, como tal, integrante do seu
Conselho de Direo. No SEC (Servio de Extenso Cultural), rgo por ele criado no
quadro da ento Universidade do Recife, era igualmente o Diretor. Em 1964, por ocasio
do Golpe, Paulo Freire era o Coordenador do Programa Nacional de Alfabetizao,
institudo no MEC pelo Ministro Paulo de Tarso Santos.

        A escolha do nome de Paulo Freire para a Secretaria de Educao do Municpio
de So Paulo, pela Prefeita Luza Erundina, foi "a opo mais lgica", observam Moacir
Gadotti e Carlos Alberto Torres (1995, p. 11-17): no apenas pelo fato de ser Paulo Freire
o educador que era, mas por ser membro fundador do PT, integrar sua Comisso de
Educao, ser o Presidente da Fundao Wilson Pinheiro, tambm do PT. Paulo aceitou
o novo desafio, com a condio de permanecer como Secretrio apenas durante os dois
primeiros anos da gesto da Prefeita Luza Erundina. Tinha o projeto de escrever outros
livros, o que no seria possvel enquanto estivesse envolvido com a engrenagem da
administrao pblica. E considerava seus cursos, conferncias, entrevistas, debates e
livros como tarefas prioritrias.

     Tanto que Paulo Freire no foi (nem poderia ter sido) um executivo convencional.
Nem sempre foi compreendido quando, percebendo que seria conveniente para o
andamento das tarefas burocrticas, dar-se um tempo de lazer para refletir melhor,


                                           12
interrompia suas atividades na Secretaria e, sem meias palavras, dizia: "vou ao cinema
com minha mulher".

       A obra que resultou de seu tempo de Secretrio, A Cidade na Educao,
tampouco aborda o dia-a-dia da burocracia. Rene dois conjuntos de entrevistas,
concedidas, as primeiras, ao longo do ano de 1989, sob o ttulo geral de "Educar para a
liberdade numa metrpole contempornea", a peridicos brasileiros (Leia, Escola Nova,
Psicologia  do Conselho Regional de Psicologia de So Paulo) e estrangeiros (do
Canad e da Itlia); ao Sindicato dos Trabalhadores do Ensino, de Minas Gerais; 
Fundao para o Desenvolvimento do Oeste do Paran. So, como so, em geral, as
entrevistas de Paulo Freire, oportunidades de reflexes livres, ainda que um tema focal
sirva de fio condutor do pensamento. Reflexes que nos conduzem a refletir tambm,
sobre os dficits da educao brasileira; para mudar a cara da escola; desafio da
administrao municipal; alfabetizao de jovens e adultos; histria como possibilidade.

       O segundo conjunto de entrevistas compreende um intercmbio de reflexes e
experincias com a professora Ana Maria Saul e os professores Moacir Gadotti e Carlos
Alberto Torres.

      No Eplogo que fecha o livro (Manifesto  maneira de quem, saindo, fica), escreve:
"No estou deixando a luta, mas mudando, simplesmente, de frente".

        Contribuiu, ainda, para a construo do Instituto Paulo Freire, de So Paulo, e a
mais completa fonte bibliogrfica para o estudo de sua histria e do seu pensamento:
Paulo Freire  uma biobibliografia, Organizada por Moacir Gadotti e Colaboradores
(1996).

        No dia 12 de abril de 1991, testemunha Moacir Gadotti (2001, p. 17), "Paulo Freire,
numa reunio com educadores e amigos, lanou a idia da criao do Instituto Paulo
Freire. Seu desejo era encontrar uma forma de reunir pessoas e instituies do mundo
todo que, movidas pela mesma utopia de uma educao como prtica da liberdade
pudessem refletir, trocar experincias, desenvolver prticas pedaggicas nas diferentes
reas do conhecimento que contribussem para a construo de um mundo com mais
justia social e solidariedade."

       Naquele ano, 1991, 19 de setembro, Paulo Freire completou 70 anos de idade.
Este fato ensejou numerosos registros e homenagens, com ou sem sua presena, em
vrias partes do mundo. No Recife, sua Cidade, o Conselho Estadual de Educao e a
Secretaria de Educao, Cultura e Esportes do Estado de Pernambuco promoveram,
conjuntamente, uma afetuosa homenagem a seu filho, por vrios ttulos, ilustre: 70 anos
de Paulo Freire no mundo.

        No Manifesto  maneira de quem, saindo, fica, Paulo Freire declarou no estar
abandonando a luta, mas "mudando de frente". Talvez fosse mais exato, dizer: retornando
 frente  qual dedicou o tempo mais substancial de sua vida  pensar e escrever seus
sonhos e utopias. Sonhos e utopias que dariam corpo a obras que completariam, ao lado
de Educao como prtica da liberdade (1967) e Pedagogia do oprimido (1970), algumas
das referncias maiores para se compreender Paulo Freire: Pedagogia da esperana
(1992), Cartas a Cristina (1994),  sombra desta mangueira (1995), e Pedagogia da
autonomia (1997). E deixaria, simbolicamente, inconclusos, cartas e textos que seriam
reunidos por Ana Maria Arajo Freire em um livro emblemtico: Pedagogia da Indignao


                                            13
(2000). Na verdade, como escreveu Balduino Andreola, que a prefaciou, no se trata de
uma obra pstuma. Penso que simboliza uma histria no finalizada, mas que continua
"se fazendo". No era uma frase de efeito, mas uma convico profundamente arraigada,
quando Paulo Freire dizia: "seguir-me  no me seguir;  reinventar-me."

        Nos anos 90, durante a gesto da Professora Silke Weber na Secretaria de
Educao do Estado de Pernambuco, Paulo Freire fez diversas visitas ao Recife e,
tambm, ao Cabo de Santo Agostinho. Vinha, quase sempre, para falar aos professores
e professoras de vrias entidades, principalmente atuando em programas de
alfabetizao. Trabalhava ento, dando continuidade a vnculo que tinha razes
profissionais nos anos 50, ao lado de Maria Adozinda Monteiro Costa.

         Em fevereiro de 1997, Paulo Freire fez sua ltima visita ao Recife. Veio a convite
do SESI. Proferiu, ento, uma palestra (Freire, P. 1997-b), a ltima entre ns, quando
rememorou os dez anos em que trabalhou no SESI. Mais uma vez, repetiu: "mudar 
difcil, mas  possvel."

         Escreve Ana Maria Arajo Freire, na Pedagogia da indignao (Freire, P., 2000, p.
67-68) que, apesar de cansado, ainda em abril de1997, Paulo se encontrava intelectual e
emocionalmente envolvido com o seu trabalho, com a educao. Lembra que, no dia 20,
recebeu a visita de Germano Coelho e de sua filha, Vernica, e para eles leu as cartas
pedaggicas que estava escrevendo. Germano e Vernica "foram as ltimas pessoas que
tiveram o privilgio de saber detalhes e de ouvir da prpria voz do autor, trechos desse
livro inacabado" (Pedagogia da indignao).

        Dois dias aps, 22 de abril de 1997, Paulo Freire proferiu, na PUC de So Paulo,
sua ltima aula.

        Nas palavras de Ana Maria, naquele ltimo encontro com Paulo Freire, Germano
Coelho e Vernica "testemunharam a energia emanada de sua indignao e de seu amor;
a vontade de trabalhar e de participar, criticamente, da vida de seu pas; e o gosto de
viver que Paulo levou consigo na madrugada de 2 de maio de 1997."

       Paulo Freire morreu de infarto, aos 75 anos de idade.

       "Eu gostaria de ser lembrado como algum que amou o mundo, as pessoas,
os bichos, as rvores, a terra, a gua, a vida."
                                    (Paulo Freire)




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Referncias bibliogrficas

Obras de Paulo Freire

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Conscientizao e alfabetizao: uma nova viso do processo. Estudos Universitrios 
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Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1970.

Educao e mudana. So Paulo: Editora Paz e Terra, 1979.

A importncia do ato de ler em trs artigos que se completam. So Paulo: Cortez Editora,
1982.
A educao na cidade. So Paulo: Cortez Editora, 1991.

Pedagogia da esperana. So Paulo: Editora Paz e Terra, 1992.

Poltica e educao. So Paulo: Cortez Editora, 1993.

Cartas a Cristina. So Paulo: Editora Paz e Terra, 1974.

 sombra desta mangueira. So Paulo: Editora Olho d'gua, 1995.

Pedagogia da autonomia. So Paulo: Editora Paz e Terra, 1997.

Mudar  difcil, mas  possvel (Palestra proferida no SESI de Pernambuco). Recife:
CNI/SESI, 1997-b.

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Obras de Paulo Freire & Colaboradores

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FREIRE, Paulo; GUIMARES, Srgio. Aprendendo com a prpria histria. V. 1. Rio de
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FREIRE, Paulo; GUIMARES, Srgio. Aprendendo com a prpria histria. V. 2. So Paulo:
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FREIRE, Paulo; MACEDO, Donaldo. Alfabetizao: Leitura do mundo, leitura da palavra.
So Paulo: Editora Paz e Terra, 1990.

FREIRE, Paulo; OLIVEIRA, Roziska Darcy de; OLIVEIRA, Miguel Darcy de; CECCON,
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Textos publicados em Paulo Freire  uma biobibliografia

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